Verticalização versus horizontalização: o impacto das mudanças no plano diretor sobre a re

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Verticalização versus horizontalização: o impacto das mudanças no plano diretor sobre a rentabilidade de terrenos urbanos

Há dez anos, meu avô costumava dizer que o valor de um terreno se media pela quantidade de metros de frente que ele tinha para a rua. Ele possuía um lote em uma zona que, na época, era composta apenas por casas térreas e muros baixos. Era uma lógica simples: quanto mais espaço para estender o jardim ou construir uma varanda, mais valioso era o imóvel. Hoje, essa métrica quase artesanal mudou drasticamente. Acompanhar as revisões do Plano Diretor de uma cidade não é apenas um exercício burocrático; é, na prática, a diferença entre ver o patrimônio estagnar ou multiplicar seu valor através da verticalização.

O peso da canetada urbana

Recentemente, acompanhei o caso de um investidor que detinha um terreno de esquina em um bairro que, por décadas, foi estritamente residencial e de baixa densidade. Ele pensava em construir uma pequena galeria comercial. No entanto, uma alteração no zoneamento local elevou o potencial construtivo daquela quadra, permitindo a construção de prédios de até doze andares.

O projeto da galeria, que antes parecia uma excelente forma de gerar renda com aluguel, tornou-se subitamente um erro estratégico. O terreno, que valia X sob a ótica da horizontalização, passou a ter um valor de mercado muito maior para uma incorporadora focada em lançamentos imobiliários. A lição ali foi clara: a rentabilidade de um imóvel urbano é ditada pelo que a prefeitura permite que você coloque em cima dele, e não apenas pela localização geográfica. A verticalização transforma o “chão” em um ativo multidimensional, onde cada andar adicionado é uma nova unidade de receita potencial.

Quando a casa térrea ainda é rainha

Apesar da febre dos prédios, a horizontalização não morreu; ela apenas mudou de nicho. Em áreas onde o Plano Diretor impõe restrições severas de altura — muitas vezes para preservar o caráter histórico ou a infraestrutura local saturada — os terrenos mantêm sua valorização baseada na exclusividade.

Um cliente me procurou querendo vender uma propriedade em um bairro onde a altura máxima permitida é de dois pavimentos. Ali, a rentabilidade não virá da densidade, mas do home staging e da reforma focada em valorização imobiliária. Diferente do terreno que vai virar um arranha-céu, ali o valor está na estética, na planta otimizada e no padrão de acabamento. O dono do imóvel horizontal precisa entender que seu concorrente não é o condomínio de luxo da esquina, mas sim outras casas que oferecem o mesmo estilo de vida.

Onde moram as oportunidades reais

O segredo para quem deseja investir ou gerir ativos imobiliários reside em não olhar para o terreno como ele é hoje, mas como ele será daqui a cinco anos. Observe a infraestrutura que chega ao bairro:

Expansão de linhas de transporte público de alta capacidade.

Novos eixos de centralidade comercial que justificam a densidade.

Flexibilização dos índices de aproveitamento (o famoso coeficiente de construção).

Muitos proprietários perdem dinheiro ao tentar insistir em um modelo de uso que o mercado já superou. Um lote que comporta um prédio de apartamentos não deveria ser usado para um estacionamento de fachada, da mesma forma que um terreno em zona de conservação não deve ser comprado esperando-se que o Plano Diretor libere uma torre residencial amanhã.

Negociar imóveis exige essa percepção aguçada entre o que é permitido e o que é viável. A transição da horizontalidade para a verticalização é um movimento natural das cidades que crescem, e entender esse ciclo é o que diferencia o investidor que apenas mantém seu patrimônio daquele que realmente o faz crescer. No final das contas, o melhor negócio imobiliário é aquele que respeita o fluxo da cidade, garantindo que o concreto erguido — ou a casa preservada — esteja em total sintonia com as regras do jogo urbano.